sexta-feira, 16 de março de 2018

A Matéria Negra do Amor

zerochan

Lojas de todos os tipos me cercam. Brilhosos letreiros revelam-se pomposamente, atraindo com magnetismo cada vez mais consumidores para os interiores de suas lojas. Neste instante, estou paralisado no centro deste imenso corredor lustroso do shopping. Acompanho um formoso casal de jovens atravessar meu campo de visão e desaparecer, tomando rumos que desconheço e nem tenho a curiosidade de considerar. Sinto minha expressão endurecer. Ela criara esse hábito. Enrijece sempre que testemunho um casal radiantemente amoroso passar por mim. Na verdade, ultimamente, ela tem se enrijecido por qualquer motivo. Talvez tenha percebido o contínuo ódio que venho a cultivar durante um exacerbado período e, por motivações inconscientes, muda-se instantaneamente. Ou, talvez, deva ser por conta de minha intrínseca contradição. Sabe, sempre que desprezo esses tipinhos modernos de namorados, sinto os meus olhos umedecerem. Não porque soa triste para mim, mas porque, no fundo, admiro a capacidade afetiva de tais indivíduos de construírem uma relação baseada em aspectos mútuos de confiança e tolerabilidade. Sei, por exemplo, que eu jamais conseguiria sustentar qualquer relacionamento amoroso — independente se a garota for uma mestra em tolerância. Boa parte de minha aversão invejosa, evidentemente, é resultado da minha impossibilidade em ser amado e da desistência em procurar o milagre sentimentalista e afetivo o qual me salvará do isolamento. Matematicamente falando, as chances de alguém encontrar a sua alma gêmea na mesma cidade em que vive é irrealista e cruel. E mesmo ampliando o cenário para nível nacional ou internacional, a probabilidade ainda é baixíssima. Reúna, então, a minha peculiar característica de desprezar o amor — pois eu nunca procuro por alguém. Assim poupo-me energia e evito o crescimento de frustrações. Como poderia encontrar este ser miraculoso cujas probabilidades são divinamente impossíveis? Não poderia. Mas o meu desanimo não se traduz a respeito disso. Veja bem: todos os casais não são perfeitos uns aos outros — e nenhum casal encontrou a sua metade da laranja! O ser perfeito e gêmeo não existe! É uma ilusão criada pelo acúmulo de sentimentos e afetos! Muitos somente chegam a essa conclusão após, de fato, terem conhecido alguém. Pois é convenientemente simples caracterizar um relacionamento como ideal e sublime quando já se construiu atributos positivos sobre incongruências existenciais e personalísticas! Isto não é perfeição! É a mais pura evolução e solidificação de habilidades e situações!

Não... se há algo em que eu não me preocupo é com este desejo absurdo de encontrar alguém capaz de completá-lo! Bem, acredito que todo este descarrego já tenha evidenciado o verdadeiro horror da incapacidade de ser amado. Para alguns indivíduos, e qualifico-me como um deles, as oportunidades amorosas são ridiculamente escassas. Primeiro porque, no campo do jogo, da sedução, eles são completos azarados. Nunca se encontrarão flertando com ninguém, porque classificam-se como uma nova espécie de seres: os incompreendidos. E os incompreendidos acreditam fielmente que jamais alguém conseguirá corresponder quaisquer de suas intenções; que menosprezarão seu estado de espírito e rirão de suas pretensões como indivíduo. Que, devido ao acúmulo de uma sabedoria frívola e pontual, poucos conseguirão de fato compreendê-lo em sua totalidade e, com uma aversão natural ao estranho, ao incomum, se afastarão dele. E, melancolicamente, entendem o peso de suas personalidades, o fardo de singularizar-se. A outra parte, portanto, não tem quaisquer meios de adentrar os sentimentos de indivíduos como esses, afinal eles são impenetráveis e imutáveis. O azar tanto os feriu que a espera pela sorte se silenciou na mais ensurdecedora desesperança.

Levanto-me, finalmente, do banco duro de madeira e, a passos vagarosos, arrasto o meu corpo rumo à praça de alimentação. Analiso a lotação de pessoas, as quais tomaram majoritariamente os assentos, e encontro uma mesa com duas cadeiras vazias no extremo da praça, encostada a uma estrutura com plantas no interior. Embora eu esteja num lugar para alimentação, não sinto fome alguma. Dirijo-me imediatamente para a mesa.

Já sentado, começo a divagar o olhar, quando encontro o casal de antes, acompanhado por duas pessoas. Agora observo com mais clareza os detalhes físicos da garota. É exatamente o tipo em que sempre sonhei namorar. De repente, um amargor toma conta do meu peito. É a maldita invejinha. O terrível desejo de sucumbir à normalidade, que nem mesmo tenho direito! Sim, mesmo a trivialidade fora removida de mim, pois quando mais se tenta obter o normal, mais anormal se é. Às vezes, tenho alguns impulsos extremamente sexuais. Não no sentido criminal; mas no desespero de minha solidão. Visualizo aquele corpo nu; e inferno! Fico terrivelmente abalado! Ó incompreensão! Por que se apoderou de mim tão cruelmente? Por que obriga-me ser humilhado por tais desejos? Subjugado por minhas próprias necessidades? Quero chorar, mas contenho-me vilmente. Eles sorriem à distância. Parecem se divertir. Começo a imaginar o que estaria tornando o dia deles tão maravilhoso. Trago o meu olhar para minha companheira invisível e encaro a cadeira vazia. O rosto se enrijece, mas sucumbe pela tristeza e desmonta-se em sofrimento. Lembro-me de minhas antigas fantasias. Ah, o quão agridoce soam neste exato momento! Nesta época, eu ainda sonhava com o caloroso dia de ser amado, administrando um emaranhado de situações amorosas e literariamente descrevendo-as! E, repentinamente, o vazio arrancou este direito de mim! Tamanha injustiça privar um ser da luz e lançá-lo às trevas! Ao perder a capacidade de amar, estaria eu sendo privado de uma virtude sublime ou curado de uma doença? E se o amor é, de fato, uma doença, curar-se dela não deveria nos tornar mais felizes? Por que eu não me sinto feliz? Por que eu não estou rindo como aquele casal?

Aperto os punhos. Levo novamente o olhar para os dois casais, mas é difícil ver direito quando as lágrimas embaçam sua visão. Desta vez, fixo-me no homem jovial que acompanha a linda loira de meus mais encravados desejos. O que ele tem mas eu não? Talvez seja bem apresentado, física e visualmente falando, pelo menos. Ou quiçá é um gênio! Como eu poderia avaliá-lo de longe? Poderá ter a personalidade mais adorável de todas! E isto a tenha conquistado. Pode ser o filho da puta dos filhos das putas — e isso a tenha conquistado. Há mesmo a possibilidade de serem irmãos! Mas que relacionamento doentio de irmãos os fariam se beijar? Por Deus! Faça essa pressão sufocante no centro de meu peito passar! Gostaria de fugir. Levantar-se desta mesinha abandonada e correr no limite do aguentar. Encher os meus pulmões de trabalho e desaparecer. Num salto, ergo-me; entretanto não pretendo correr. Caminho entre as mesas e aproximo-me de um dos quiosques de comida. Peço um milkshake. "Como?", replica a atendente ao não me ouvir, nitidamente apavorada com minha face desconsolada. Minha garganta havia secado e encolhido, surpreendi por ter conseguido dizer: "Um milkshake."

"De que sabor?"

"Tem de ovomaltine?"

"Tem, sim."

"Pode ser ele."

E espero ao lado, no balcão. Fito novamente os dois, esquecendo-me dos outros. O grupo se levanta e eu me sobressalto. Dou uma espiada pelo ombro e vejo o milkshake de ovomaltine pronto sobre o balcão de mármore. Apanho-o rapidamente e começo a seguir os casais.

Do que adianta segui-los, afinal de contas? Nada estará reservado para mim no final desta caminhada senão a mais mortal das vergonhas! Corarei de tanta depravação. Nem mesmo amigo posso ser deles. Não tenho a capacidade social de me aproximar, não sem me parecer com um voyeur desprezível. Não são para isso que existem os encontros casuais? Para lembrá-lo de que a vida está constantemente oprimindo-o com a incapacidade de agir? Jogando contra você a verdade brutal de que não há salvação amorosa para a sua alma?

Acompanho-os até a entrada de uma livraria. Estaco diante de alguns livros em oferta. Tenho uma súbita admiração. Haviam entrado num dos únicos recintos culturais de um shopping, além do cinema. Mas, com a admiração, também veio — como sempre — a decepção. Tenho muito disso. Como se, em alguns momentos, todo interesse pelo conhecimento e sabedoria fossem superficiais e somente uma tendência pela pseudo-intelectualidade. Como se, ao entrar num ambiente de relevância cultural e espantar-se com obras literárias, fosse a mais falsa das emoções. A mais teatral e soberba das surpresas. É quase como se a alegria, o entusiasmo, exibisse a interpretação involuntária de uma sátira para com o genuíno saber. Quem pode ficar alegre com o abraço doloroso da existência? Quem pode se encantar com o sofrer eterno da compreensão?

Senti asco de mim mesmo, pois outrora eu era exatamente o tipo que desprezo hoje.

Viro-me e desço as escadas rolantes. Estou indo embora.

Um toque no ombro me desperta. Seria possível? Enorme coincidência? Encontrarei o amor de minha vida? Giro o corpo e encaro aquela na qual havia chamado minha atenção. Em menos de dois segundos, meu olhar brilhantemente úmido seca e a realidade se apresenta novamente. Uma senhora de uns cinquenta anos de idade segura uma carteira. Estende-a até mim e fala:

"Tudo bom? Você deixou cair quando tava descendo a escada."

"O-obrigado, moça", nunca pensei que um agradecimento pudesse ser tão pesado.

Chego ao térreo e em disparada marcho em direção à porta automática. Os olhos lacrimejantes. Uma dor radiante na cabeça. Acabe com isso, Universo. Faça-me uma máquina! Eu imploro! Tire-me os sentimentos e minha humanidade! Já não tenho mais forças para suportar essa viciosidade esmagadora de anseios afetivos! É maligna! É inumana! Compreendi que em nenhuma circunstância serei amado ou poderei amar, de fato! Sou o espécime do ódio e da apatia! O ser da incompreensão e da inveja!

Devastado, corro pela cidade. Divido com as pernas um pouco da dor do meu coração e ruas adentro sou engolido. Até que o cansaço suspende o funcionamento de meu corpo e paro. Curvo-me, respiro profundamente e varro o olhar pelo lugar. Há uma parada próxima. Não adianta querer correr vinte quilômetros quando sou capaz de suportar apenas um. É um alívio inimaginável sentar-se depois de um longo percurso. Espero vinte minutos. Por fim, o ônibus chega.

Cumprimento o motorista, preparo o dinheiro da passagem e, enquanto o entrego para o cobrador, observo o fundo do ônibus, à procura de um assento. Assombro ao ver o notório casal do shopping sentado em dois dos três últimos bancos do ônibus. E sabia imediatamente que teria de me sentar próximo a eles ou terminar de foder minhas pernas em pé. Atravessei a catraca e senti uma forte taquicardia. É claro que não me reconheceram. Não poderiam, afinal. Apenas eu havia os vistos.
Preparo para me sentar e, então, troco olhares angustiantes com a garota. Neste meio tempo, quase que paraliso. O coração apunhala-me o peito! Seria capaz de um ser tão belo entender a insanidade de minha melancolia infindável e, com isso, conceder a libertação de uma crença corrompida? Onde estaria, então, o amor de minha vida? No inferno da natureza humana? No purgatório de minha ignorância?

Universo! Deus! Eu dou minha profundidade! Dou tudo que tenho! Mas me faça normal! Tire-me o desgosto de pensar, a pretensão de conhecer, a mania de questionar! Dê-me amor e alegria! Dê-me prazer e energia! Compartilhe comigo a mais trivial das emoções! A mais superficial das ambições!

Em silêncio permaneço. Um caos de pensamentos. Olhadelas em direção do casal. Dou sinal. A minha parada é a próxima. O dia já se tornou noite. E esta obscura noite causa-me calafrios.
Sozinho detenho-me numa cidade vazia e gélida. A lua, como um daqueles letreiros brilhantes e pomposos, manifesta-se grandiosamente no céu degradê. É tão imensa!

Ilumine-me, lua, e faz do meu caminho para casa um rastro seguro de luz. Ofereça-me o abraço que mais nenhuma alma neste mundo poderá e mostre-me como um astro sem luz e pequeno que nem você pode brilhar nessa escuridão absoluta e ter uma importância tão majestosamente fundamental para a vida de outros!

Pois hoje eu não quero me esconder nas trevas, mas cintilar até o fim do meu brilho.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Está no inferno

Encontra-se no inferno aquele que tanto buscou o portão abrasivo de um anseio cósmico e eterno. Desceu ao submundo e concedeu às chamas o prazer que tanto o seduziu nesta desesperança. Permitiu-se queimar a todo o deleite do verdadeiro amar, pois com fogo precisava abrasar a animalesca vontade de se exterminar. E das cinzas tornara-se um amontoado de nada, para da alvorada, então, criar a mais desejada, enigmática e espontânea das escapadas.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Os Quinhentos Lados da Moeda

zerochan

Unificarei os sentidos da vida e por uma natural tendência serei esmagado! Ondas desta desenvoltura assolam o existir em ciclos violentos e provocam terríveis choques. Estaria sendo muito simplista em quantificar a vivência humana por apenas um ponto de vista, pois tamanha inatenção poderia apenas ser oriundo de uma cegueira ignorante e, portanto, infundamentada. Pontos extremos existem somente por serem constituídos de infinitos trajetos antecedentes. Quando proponho a pensar exclusivamente no meu pensar, abstenho-me e propositalmente ignoro todas as nuances que o mar existencial me concede. Enxergo o mundo de tal forma que o pequenino brilhar na escuridão salpicada representa todo o mundo o qual pessoas pensam e opinam, selado estritamente numa justificativa de imparidade abusiva e incoesa. Estranho pensar que, no fim das contas, precisamos nos integrar simultaneamente em oscilantes e múltiplos lados da vida para, então, obter um terço de sua compreensão? Pois quanto mais se existe, mais se nota o existir de incontáveis existências, cada uma habitando seu distinto universo. Estranho pensar que, apesar de tudo, muitos universos podem formar apenas um? E como haveria de exemplificar as coisas se, por si só, elas são excessivamente complexas e particulares?

Por vezes, viajo na ausência de convivências apenas para atestar o quão íntimo podem ser conclusões sociais — e essa intimidade provoca-me rebuliços de enorme visceralidade! Como posso confiar em minha opinião e sabedoria se o mundo não compartilha de minhas memórias e de meus profundos conceitos? Como posso flertar olhares se aquela que me vê enxerga com os olhos distorcidos de outra realidade? Sou dois e três ao mesmo tempo? Um espelho fragmentado cujos pedaços tornaram-se demasiados conscientes de si mesmo? Sou, assim, abençoado pela infinidade de possibilidades personalísticas. Se não há nada neste mundo que seja idêntico, então teríamos de ser atraídos por similaridades! Não por leis místicas de atração, mas pela simples concentração de interesse em seres que compartilham traços análogos. Notamos aquilo que outrora crescera vagarosamente em nossas mentes. Organizamos tais informações e do uso dela atraímos e somos atraídos por equivalentes existenciais e afetivos. O problema consiste justamente na simplificação desses conjuntos. Depois de conectados, há o entendimento de que ambas partes estão num consenso irretocável; mas como se sustentaria tal aprovação sublime se o que define você é ser unicamente você? Como poderia ser perfeito para alguém quando a vida se propõe tanto a te ramificar?

Infortúnios existirão até o voltar dos seres vivos à escuridão; entretanto, incompreensões muitas vezes são frutos de um pensamento unilateral e limitadamente organizado para com os outros viveres. Antes de falaciar o irrefutável significado da realidade, precisa-se entender os quinhentos lados da moeda. Entender o fútil e o profundo; o amor e o ódio; a sabedoria e a ignorância; o viver e o morrer; a alegria e a infelicidade; a razão e a loucura; a coragem e o medo; a esperança e o desistir; a realidade e o irreal; o instinto e a consciência. É impossível trazer com tu toda a verdade sendo ela infernalmente subjetiva! Se perderia no eterno desejo de confirmar suas pretensões e, com isso, perceberia mais milhões de anseios. Num prolongado jogo de respostas, encontrará exatamente o oposto, visto que indagações nascem da falta de soluções.

Viveríamos num padrão que se repete de maneira diferente? Que embora conteste identidades, depende de semelhanças? E como viverei sem enamorar-me de novos pontos de vistas e casar-me com a hipocrisia?

Tamanha admiração sinto quando cercado por uma multidão! Tantos universos! Tanto conforto ao sentir que não importa o quanto eu lute para provar o meu ponto, existirão incontáveis que, em hipótese alguma, concordarão! Imediatamente noto o quão disperso fui. O quão negligente em desprezar outros modos de vidas. Pois não existe situação em que mais alguém não possa ser arrastado para dentro. Como saberia, afinal, o lado desprezível se nunca o senti em minha carne? Em nenhuma circunstância poderia desmascarar crenças preconceituosas estando envolto de motivações individuais. A lógica pode ser facilmente manipulada quando precisares atestar sua existência. A ilusão de ser especial — não se sentir, mas descobrir no que e por que a vida luta para ser. Talvez, então, a hipocrisia não seja um aspecto indissociável do caráter humano, mas da dualidade do cérebro entre o querer do inconsciente e o dizer do consciente.

Se há algo especial, então este é vivenciar as infindas direções da compreensão.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

A Importância da Futilidade

zerochan link

Sempre que posso, em medidas mundanamente convencionais, tento-me preencher de profundidade e saber. Faço uma refeição semanal de literatura, música eterna e, de sobremesa, belisco a mais emblemática arte cinematográfica que seja possível consumir. Mas, com o tempo, toda a pureza soma-se demasiada num indivíduo projetado para ser impuro. A instalação de um peso inicialmente imperceptível, mas que cresce em proporções irregulares, começa a incomodar e a parecer supérfluo. Compreendo, então, que o acúmulo do que é profundo, imortal e intelectual é apenas uma forma exacerbada de enganar a si mesmo, costurado a justificativas existenciais que, embora façam sentido, jamais sustentam-se na vida real. E mesmo que a lógica desses atributos beire a irrefutabilidade, um simples pisar no cotidiano é capaz de desmantelar todos os pilares de intelectualidade que suportam essa fantasia mesquinha e individual. A futilidade é a antítese da importância, e ela pode ser encontrada infinitamente em todos os seres minúsculos que habitam este universo. Há futilidade até mesmo numa pessoa inteligente; entretanto raramente observa-se lampejos de complexidade em uma quantidade vinte vezes maior de pessoas. Trata-se de uma mania supersticiosa, da imprecisão de se medir a vida, pois uma vez exposto de que a existência é, na verdade, simplificadamente banal e acidental, pensar se torna um mero luxo, uma mera vontade de agregar ao desnecessário. Dessa maneira, tendemos a sobrecarregar profundidade, perdendo essência ao invés de superficialidade. Eu diria que a intelectualidade excessiva nos emburrece, complicando aquilo que é naturalmente simples.

A vida fora projetada para ser fútil — e não se precisa mais do que isso para vivenciá-la adequadamente. No fim, a música eterna não soará mais tão infinita, e as canções ruins, anteriormente julgadas por serem pretensiosas e culturalmente irrelevantes, começarão a fazer mais sentido. Depois de um tempo, você começará até mesmo a cantá-las. Divertirá-se com a infame piada que tal situação criou, abstendo-se da hipocrisia e mergulhando nas possibilidades de um mundo real, cuja presença é inegavelmente acolhedora. A poesia não parecerá mais tão útil e, junto com o abstratismo, desvanecerá das suas necessidades atuais, pois a comida bem preparada encherá mais barriga que palavras prodigiosas e eremitas. Afogado por constantes viagens, mesmo o cinema sairá da rotina e não significará nada além de fantasia desimportante.

Longe da virtude do pensar, finalmente torna-se livre o corpo da mente. Nesta tênue e improvável separação, é quando um ser eterniza sua ascensão espiritual e existencial. Afinal, o espectro de ações somente exerce influência no campo físico. A realidade é inimiga do pensamento.

Não é propriamente terrível ser sábio, mas somente quando a sua felicidade não depende de futilidade. É evidente que sabedoria e inteligência sempre foram benéficas para com a humanidade, embora muitos dos gênios sequer puderam deleitar suas repercussões. Entretanto não basta apenas ser intrépido, precisa ter uma mente suficientemente aberta para a aceitar a injustiça do tempo. Quanto mais você sabe, mais aprende, mais sobrecarregado se torna. Não temos uma alma infinitamente espaçosa, de corredores intermináveis onde sua memória possa transitar livre e fácil. Muitas vezes, esse sobrecarregamento é demasiado infeliz, pois é composto de reflexões, teorias e ideias que não tem qualquer peso na realidade. Na realidade onde existimos. Onde vivemos, sobrevivemos. A realidade realidade é simples, puramente corriqueira e desinteressante. Quando tanto conhecimento não encontra um ponto de sustentação, ele começa a ser distorcido — ou acumula-se ao ponto de estourar. Quando o peso da sabedoria é insuportável, descarregamos-o no mundo real para, imediatamente, ser descartado por pessoas triviais. Não se precisa ser um gênio para martelar um prego ou para cumprir uma carga de oito horas diárias num fast-food. E se a vida não permite que suas ambições tomem liberdade, você é obrigado a abraçar os restos; a insignificante e besta motivação da sociedade: continuar sobrevivendo, mesmo que custe qualidade ou singularidade.

É difícil encontrar semelhanças existencialmente profundas num mundo moldado pela frivolidade, num mundo em que não se importa o quão múltiplo ou valioso você ou seus estudos sejam. Mas dá para compreendê-lo, não? Pessoas simples enxergam sua totalidade sem mesmo notarem, apenas vivenciando-a. Elas não buscam afirmações teóricas e rebuscadas, mas fatos que exercem significado em seus modos de vida. Não se importam se o sol é uma estrela cuja força gravitacional atrai todos os planetas do Sistema Solar, pois este conhecimento não mudará o calor que os aquece. Logo, se não há uma função ativa em suas vidas, carece de qualquer abraço intelectualizado de compreensão. Este restringimento de informação e conhecimento, embora soe fruto de uma ignorância primitiva, é benéfico para a saúde mental de um cérebro projetado para cumprir suas necessidades mais primárias. Senão pela consciência, estaríamos no mesmo patamar de macacos. Elevar o valor de um presente amaldiçoado e casual unicamente assegura o surgimento de temores, dúvidas, indagações e, portanto, loucuras. Arrastamo-nos à arrogância quando ultrapassamos o vale do comum. Um desejo fictício de se conectar com o longínquo, aspirações de ser importante. Tudo para disfarçar o medo de ser alguém fútil.

Haveria de ser mais feliz abstendo-se da pureza! Retornando-se ao comum, ao viver real! Esquecendo-se da imortalidade dos papéis! Deletando, num ato insanamente controverso, a pequena parcela de profundidade que os anos lhe trouxeram! Onde a conversa flui simplória, humorada e idiota, e o único temor no chegar das onze horas é que, no dia seguinte, a futilidade não vá embora, visto que você finalmente a entendeu e agora consegue compartilhar a sua importância.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Declaração

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A necessidade afetiva é uma força terrivelmente manipulativa. Anseios de amor podem guinar as suas crenças contra o seu próprio rancor e virtuoso conceito de isolamento eterno, tornando-o um punhado de ações impulsivas e estúpidas. Não o amor belo, jovem, ardente e otimista; o mais intenso, violento e infeliz amor de todos: aquele impossível de ser correspondido, cuja extensão dura muito mais do que o suportável. A velhice não seria o suficiente para apagar o fulgor letal dos tempos de jovens — pelo contrário, amargaria dez vezes mais o ressentimento. Amores como esses são incrivelmente comuns para certas pessoas e, dado sua banalidade, têm um tendência anormal para fomentar frustrações — muitas intermináveis. Os efeitos deste fenômeno surgem justamente por causa da alta sensibilidade do indivíduo em observar e absorver, e as causas flertam diretamente com a síndrome da mente exagerada, pois um ser humano com tal capacidade aumentaria um olhar em mil, se assim conseguir, um cumprimento em flerte e uma aparente singularidade individual em um chamado do destino para o seu altar amoroso. Aparentemente, enxerga-se um exacerbado egocentrismo espreitando esses seres. Boa parte de suas decepções nascem especificamente disso, afinal, um egocêntrico mal informado e péssimo entendedor é responsável pelos maiores equívocos sociais que um millennial pode cometer. Enxergam o rosto delicado e divino de uma mulher, interceptam o seu olhar e instantaneamente se veem entrelaçados profunda e longinquamente com essa pessoa. O laço, entretanto, cria-se apenas no pobre incompreendido. Vejamos um pequeno contato assim: quando se cumprimentam, ambos entram num jardim, e nele pode-se plantar as mais variadas plantas e árvores afetivas, de acordo com a vontade do agricultor. O terreno possui o solo mais fértil do planeta, que germina em uma velocidade impossível de se determinar, mas incapaz de fazer crescer qualquer coisa que não seja lançada em sua superfície. Os incompreendidos são excelentes agricultores e anseiam por enterrar sementes o tempo todo. Mas, naquele lugar, criações não compartilhadas são meros enfeites supérfluos que lotam o espaço, sufocam e esperam para apodrecerem. Quando a outra parte nada planta, não corresponde seus esforços imaginários e suplicantes — o que é absolutamente compreensível e precisa acontecer —, a plantação apenas lhe tira a respiração. E dói. Dói visceralmente.

No fim, muitos atribuem a culpa a alguém que não seja a si mesmo — ou mesmo ao mundo, à vida, à existência, à sociedade, ao sistema, até à própria família! Tragicamente, embora se possa colocar culpa em qualquer coisa, a maior parte é oriunda da própria personalidade do incompreendido. É devido a sua própria perspectiva que os fatos desenrolam-se injustos e insensíveis. Ninguém é obrigado a compartilhar amor se assim não desejar. O amor, além de suas raízes fisiológicas e inconscientes, também é um recurso de significação existencial da alma humana. Jamais deveríamos nos apegar àqueles que são essencialmente rasos para com nossas necessidades. Injusto seria amar sem amar. Injusto seria corresponder o incompreendido.

Arde o desejo e tudo parece ser brilhantemente escrito para aquele momento. A peça de teatro revela-se lustrosa e dourada! Convida-o ao definitivo momento que mudará, finalmente, sua vida! O resplendor belo e flamejante, o batucar incansável do coração, a dormência do corpo e a massagem de dopamina no cérebro. Você sente tudo! O amor ascende e resgata a luz das profundezas lúgubres do seu cerne. Então é verdadeiro? Está acontecendo? Corresponderá, então, magistralmente? O fim da incompreensão e o nascer da atenção, da literariedade, das aventuras, do esbanjar de sensações químicas que prodigiosamente assemelham-se com as doses altíssimas de drogas? Onde a perfeição atinge sua nota máxima e sonoriza a melódia mais sublime e significativa de todas?

Não.

Não é obvio? A mudança já teria acontecido. Um azarado jamais acertará os números da loteria, porque a matemática, a probabilidade e o próprio indivíduo garantirão o fracasso de sua tentativa. O espiral de degradação é contínuo, a frustração nunca cessa. O incompreendido não sabe jogar, não é capaz de identificar oportunidades amorosas e intencionalmente se fará de desentendido para sofrer mais, visto que tomou gosto pelo sofrimento e pela futilidade. Aproveitará a deixa e rotulará a todos de fúteis, superficiais e tolos. Para ele, aqueles que conseguirem amar, estão, na verdade, atuando um mal elaborado e inconvincente filme de baixo orçamento. Estão fingindo, encenando para preencher o vazio da consciência humana e a urgência fisiológica de seus corpos, no intuito de preservarem a ordem natural da vida. Mas como ele gostaria de ter tudo aquilo; a superficialidade, a frivolidade, a vulgaridade! Largaria mil vidas, venderia duas mil almas, tudo para degustar uma parcela insignificante do amor que outros experienciam. Enamoraria o sentir; o tocar; o contemplar; o acariciar; o conversar; o trocar; o corresponder; o ser correspondido; o fazer amor; o abraçar; o cheirar; o alisar; o experimentar e, acima de todas essas coisas, o amar e ser amado.

Mas aquele sorriso e aquelas bochechas e aqueles olhos e aquele nariz e aquele cabelo e aquele delicado contorno de seu rosto e aquela pele e aqueles seios e todo aquele corpo jamais pertencerão ao incompreendido.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Um Solitário Jamais Conhecerá a Própria Solidão

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A solidão tem me sido uma companheira devota desde o meu nascimento, mesmo quando eu, um pequeno bebê, sequer havia capacidade de pensar sobre ela. Possivelmente a pressentia, mas o que são os sentimentos se você não puder compreendê-los? Apenas um aglomerado de sensações físicas que contribuem para o desenvolvimento do cérebro?

Eu acredito que, para alguns seres humanos, em sua maioria (in)felizes dotados de uma exagerada percepção mental, a solidão não caracteriza-se apenas como um complemento de nossa riqueza emocional ou condição social, mas como um aspecto fundamentalmente natural da alma humana. Tão presa em suas raízes que, sem nem mesmo ponderar, tal indivíduo carregaria este fardo consigo eternamente, espiando apenas fragmentos de seu comportamento, os quais jamais o permitiriam refletir sobre os seus significados. Nunca questionaria o porquê e morreria em seu próprio isolamento, com uma alma inesperadamente elevada perante os comuns e de conhecimento abundante, enterrado por importunidades e sofrimento. Renegado pela sociedade, pela vida e pelo existir.

Entretanto, há aqueles que abraçam a solidão conscientemente. Não se sabe ao certo se indivíduos como esses são reféns de uma condição naturalmente solitária e apenas não sabem ou, por não terem outra coisa senão o absurdo e o desgosto da existência, tornam-se, então, seres isolados. É, de fato, muitíssimo curioso analisar alguns de seus comportamentos. Por que alguém, cuja vida poderia ser facilmente social e regada por prazeres mundanos, abstém-se de tudo e a todos para se colocar num terrível estado de isolamento e, portanto, amargura? Mesmo a plenitude de nada valeria se não pudesse ser compartilhada, visto que um deleite pessoal morrerá no involucro do próprio ser. Observo, na verdade, uma tendência ao conformismo, pois absolutamente qualquer ser com consciência pode sofrer. E é muito fácil sentir desespero, tristeza, agonia, depressão. São sentimentos não apenas comuns como excessivos e encontram-se na maioria das situações (mesmo nas mais felizes se pode extrair a infelicidade). Talvez — e isso é um talvez muito certo de que é um talvez — haja uma enorme consolação em aceitar que a vida é deprimente e que, se você conhece o fundo do poço tão bem, então, de forma alguma, poderá temê-lo. Olhará para todos os seres abençoados, os casais, e revirará os olhos de propósito. Sentirá admiração, mas a conterá com desprezo.

Como poderia sentir-se mal estando vazio se o vazio tornou-se uma condição aceitável?

Mas não é sempre que você tem a escolha de guinar o seu sofrimento para outra direção. Às vezes, sofrer é simplesmente o que há. O que corrobora imensamente com o fato de abraçar a própria solidão com fervura e, com ódio, recusar todo o amor da humanidade. É a nobreza que sorri para você, a alegria de estar sozinho por querer, por decisão própria, e não exterior, e não de ninguém, e não do mundo. Jamais sentirá-se de fato sozinho, pois a solidão se ofertará como companheira leal. Ela o ajudará a enfiar inferno abaixo toda a dor no peito que você sente ao olhar aqueles tipinhos de pessoas animadas, tão vazios quanto sua própria situação.

Não é simples sofrer por querer, pois contradições nunca são sensatas e precisas, nunca trazem resultados verdadeiros e únicos. Quem diz gostar de sofrer, mente, afinal a própria palavra esclarece que dor prejudica e não ajuda. Na verdade, é algo mais próximo da auto-piedade, do auto-desprezo, do qualquer outra coisa! Aaah, o meu amor nunca aparecerá, portanto devo morrer sozinho jogado num canto fétido e tóxico! 

Fácil notar o quão paradoxalmente covardes são essas pessoas e os seus medos de assumirem o desespero e o anseio por aquilo que elas tanta evitam; da fraquíssima argumentação em torno do isolamento, a fim de justificar um desejo reprimido de se socializarem, de obterem tudo aquilo que as pessoas comuns, os casais, as famílias, têm. A escolha desses indivíduos é, consequentemente, uma desculpa débil e nebulosa que não convence nem a eles mesmos. É a forma de, opostamente, sofrerem menos, de se isolarem menos. A aceitação soa como um pedido de socorro, que roga pelo envolvimento de uma entidade capaz de tirá-los do buraco infindável. Dadas circunstâncias, de mãos abertas eles aceitam esta condição fictícia, cuidadosamente alimentada por falsas justificativas, e jamais se desprendem dela. Vivem amargurados, sozinhos, e nem mesmo a imortalidade conhecerão. Agravam o próprio enfermo, com a intenção contrária! Enquanto, a níveis inconscientes, juram estarem utilizando psicologia inversa quântica, eles simplesmente aprofundam o buraco do poço e depois se enterram nele. Dizem ao mundo que não precisam de alguém, que não precisam preencher a necessidade afetiva dentro deles, que tudo estará devidamente bem se, na jornada silenciosa e sofrível nesse solo em brasas, seguirem sozinhos. Evoluirá, tornará-se singular e incrivelmente sábio, entretanto carecerá de qualquer essência e afeto humano. Desvirtuará-se ao nível de se tornar um ser de outra raça, o qual não encontrará mais abrigo no mundo e nem irmãos. Verá a natureza como uma dádiva inacessível, verá os animais como bestas, os seres humanos como criaturas rústicas e ultrapassadas, verá o céu como uma atmosfera de composição diferente da sombria névoa que existe na sua mente. Tudo tornará-se tão distante que o mais delicado toque quebrará o espaço-tempo e o seu senso de lógica. De sua boca apenas sairá grunhidos distantes e impossíveis de se entender. Os seus olhos apenas verão matéria escura e pequenos pontos brilhantes. O inofensivo, que antes você evitava com temores, será mortal e cruel, e apavorará o âmago da sua sanidade.

Chorará por infelicidade e toda a tristeza soará mil vezes mais pesada e tóxica. No fim, o vazio, cultivado virtuosamente, terá proporções maiores que a si próprio, engolindo-o, aniquilando-o. Num piscar, a imensidão do seu sofrimento absorverá o universo e o sentido de seus dotes intelectuais, mesmo o mais longínquo e importante, se perderá.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O Paradoxo Existencialista de Um Paranoico

zerochan link

Estou constantemente em paranoia. A paranoia da incerteza realística. Explico: é como se todas as probabilidades ruins e amargas da vida pudessem ser quantificadas por uma parte de minha mente e, assim, lançadas à realidade. Alguns também chamam este estado de pessimismo; mas se for, então é um nível tão denso e profundo de pessimismo (antes nunca vivenciado por mim) que se alguém com esta condição acredita na teoria quântica de energia e vibração e das coisas que podem ser atraídas por meio disso, ela provavelmente estará condenada. Pois viver dessa forma se torna uma dissonância cognitiva indivisível. 

É, de fato, cômico. Afinal, se é tão fácil prever as incertezas cruéis da vida e toda sacanagem que pode acontecer consigo mesmo, por que é extremamente difícil adivinhar o contrário? O problema dessa condição reside justamente no fato de que, por mais lógico que possa parecer, o medo, a paranoia, estão intimamente ligados ao medo irracional, próximos à superstição, à fobia. É quase como um transtorno. E é, na verdade, simples deduzir isso — basta um pouco de matemática. Dou-lhes um exemplo: suponhamos que você tenha um grande estoque de água potável em sua casa. Então, matematicamente, a chance de morrer de sede é extremamente pequena, pois não só estoque está avaliado a durar muito, como pode ser reposto. Nesta circunstância, você deveria pensar: tudo bem, a respeito de água, estou ótimo. Mas não é assim que funciona com a paranoia. Você diz pra si mesmo: e se de repente essa água se esgotar e eu não tiver mais condições de abastecê-la? Então arranjará quinhentos motivos plausíveis, porém improváveis de acontecer, a fim de reforçar o seu "pessimismo". 

Vamos mais a fundo e pensemos o seguinte (aqui é cálculo puro): diremos que o índice de violência em sua cidade é relativamente baixo. As taxas de crimes são medianas e boa parte dos casos são resolvidos. Talvez apenas 0,2% da população dessa cidade seja de caráter criminoso, predispostos a cometerem um ato hediondo. Num lugar de 200 mil pessoas, o número de criminosos, então, seria algo em torno de 400. Bem, ainda são bastante criminosos. Porém, são 400 pessoas ruins no meio de 199.600 pessoas normais. O paranoico se concentra especificamente na exceção, nos 0,2%, mesmo sabendo que por mais improvável que seja, é plausível e, portanto, realista. Até porque são quatrocentas pessoas e não zero. Como se livrar dessa dissonância? O lado bom é explícito e está ali — e antigamente ele até mesmo o enxergava, mas deu azar e vislumbrou a exceção. O que aconteceu com sua visão? Tornou-se mais realista ou mais amargurada? Fora apenas o mundo que lhe mostrou o quão irrealista era sua antiga perspectiva de vida ou é apenas o pobre homem que a está distorcendo e exacerbando o incogitável? O seu corpo hiper-vigilante já não reconhece mais a tranquilidade. E ele está plenamente consciente que o perigo reside em cada espaço onde há vida, pois, naturalmente, todos caminham para o mesmo rumo; embora não consiga, a níveis profundos de consciência, reconstruir a imagem de que o mundo era um pouco mais inofensivo. 

Assim, há a impressão de que a mente caminha ao abismo, acumulando todo o fardo negativo encontrado na estrada, até o escuro. Este medo irracional, porém tolerável, transforma-se em um gás letal. Não é possível que um futuro exista se ele é visto como uma tragédia, porque um acontecimento terrível é simplesmente o presságio do fim. E uma mente de consciência exagerada jamais conseguiria ponderar a possibilidade de adentrar a ignorância cotidiana exatamente por temer irracionalmente. A fobia de Murphy. De pensar naquilo e antever o acontecimento, de não pensar e antever o acontecimento e de pensar no oposto e, mesmo assim, antever o acontecimento. Viram o paradoxo existencialista de um paranoico? De repente, vive-se uma vida amargurada e de potencial absurdamente limitado. Coisas são deixadas de lado. A aceitação da morte e do fim do universo conforta o coração momentaneamente, mas de forma alguma consegue inibir o amargor. Porque você não quer morrer, você não quer deixar de existir, você quer exatamente o oposto! Contudo, a vida não parece combinar com o mundo atual e se torna impossível decidir um futuro bom numa perspectiva lúgubre e curta. Então o paranoico se pegará perguntando o seguinte: mesmo por um segundo, a partir do momento que você vivencia o lado negro da existência, toda ela se tornará negra? Ou isso depende apenas de você e de toda ajuda psicológica e medicamentos que o mundo puder lhe empurrar? Pois ele sabe que o lado iluminado e sublime existe, porém uma vez integrado no canto oposto, ele não sairá dali. Afinal, é muito mais fácil entrar do que sair. Não é o que as leis dizem? É paradoxal, mas ao mesmo tempo crível, como se depois que experimentada a exceção, fazer parte dela cria um novo universo onde as 199.600 pessoas são criminosas e apenas as 400 são normais.